TREINAMENTO EM EXCESSO:O QUE É E O QUE PODE PROVOCAR NO ATLETA?

Atletas que realizam grandes volumes de treinamento, buscando a melhora da performance, podem sofrer com um fenômeno chamado de Overreaching (OR). OR é caracterizado por um breve período (esperado) de redução da performance acompanhado de alterações de humor e fadiga excessiva, e é ocasionado pelo treinamento físico excessivo, recuperação incompleta e alto estresse do organismo.

Quando o Overreaching é “programado”, poucos dias ou semanas são o suficiente para que ocorra a supercompensação (melhora da performance), sendo este chamado de Overreaching funcional. Entretanto, quando ocorre um erro entre a manipulação da intensidade/ volume do treinamento versus tempo de recuperação, pode ocorrer o Overreaching não-funcional (quando são necessárias várias semanas de recuperação) ou mesmo o overtraining (meses de recuperação, podendo ocorrer até mesmo a interrupção da carreira esportiva do atleta).

EXCESSO DE TREINAMENTO PROGRAMADO

Como dito anteriormente, treinar em excesso é, muitas vezes, planejado para que haja uma melhora no desempenho de um atleta antes de uma prova.

Um exemplo disso é o trabalho de Coutts e colaboradores (2007) investigaram o efeito de 6 semanas de treinamento em 2 diferentes grupos: grupo que fez treinamento intensificado (Overreaching) (TI) ou grupo que fez treinamento habitual (TN), seguido de uma semana de recuperação (polimento) para ambos os grupos.

O grupo que treinou intensamente (TI) teve melhoras significativas no Vo2Max e potência, enquanto o grupo que treinou moderadamente não teve melhoras. A relação testosterona/cortisol foi positiva para os 2 grupos.

Em síntese, realizar um período de treinamento intensificado, ou seja, treinos seguidos de alto volume e/ou alta intensidade, seguido de uma fase de recuperação antes de uma competição é a melhor estratégia para obter o máximo desemprenho.


OVERTRAINING

Sobre o Overtraining, é importante frisar que é uma sindrome multifatorial, ou seja, não tem um fator unico que pode desencadear essa sindrome, e também que a queda da performance tem uma duração mais longa que no Overreaching, durando meses. Fora a queda da performance, outros sintomas do OT são:

  • Fadiga
  • Depressão
  • Queda da motivação
  • Insônia
  • Irritabilidade
  • Ansiedade
  • Perda de peso não proposital
  • Dores
  • Falta de concentração mental.

Alguns fatores potenciais que podem provocar o Overtraining dentro de uma periodização do treinamento são:

  • Aumento da carga de treinamento sem a recuperação adequada
  • Alta monotonia do treinamento
  • Número excessivo de competições
  • Distúrbios de sono
  • Fatores estressores na vida pessoal e ocupacional
  • Episódios graves de lesões.

Algumas medidas podem evitar o Overreaching não funcional ou Overtraining são:

  • Periodização do treinamento
  • Ajuste do volume e intensidade do treinamento conforme a performance do atleta
  • Ingerir quantidades adequadas de calorias conforme o período de treinamento
  • Garantir um sono adequado
  • Intervalos de descanso de pelo menos 6 horas entre sessões de treino no mesmo dia
  • Usar escalas de humor para monitorar o atleta.
  • Mantenha registros precisos de desempenho durante o período de treinamento e competição
  • Esteja disposto a ajustar a intensidade / volume de treino diariamente, ou permitir um dia de repouso completo, quando o desempenho declinar ou o atleta reclamar de fadiga excessiva
  • Evite a monotonia excessiva do treinamento
  • Individualizar sempre a intensidade do treinamento
  • Reforçar a importância da nutrição, estado de hidratação e sono do atleta, pois estes podem aumentar o estresse do Treinamento
  • Trate o Overtraining com descanso. Treinamento reduzido pode ser suficiente para a recuperação em alguns casos, porém em outros não;
  • A retomada do treinamento deve ser individualizada com base nos sinais e sintomas, porque não existe um indicador definitivo de recuperação
  • Comunicação com os atletas (talvez através de um diário de treinamento on-line) sobre preocupações físicas, mentais e emocionais são importantes
  • Incluir questionários psicológicos regularmente para avaliar o estado emocional e psicológico do atleta
  • Reforçar a Importância dos exames de saúde regulares realizados por uma equipe multidisciplinar (médico, nutricionista, psicólogo)
  • Permita que o atleta se recupere completamente após uma doença /lesão
  • Anote a ocorrência de Infecções do trato respiratório superior e outros episódios infecciosos
  • O atleta deve ser incentivado a suspender o treinamento ou reduzir a intensidade do treinamento quando sofrer de uma infecção.


É importante salientar que qualquer atleta pode sofrer com Overreaching não funcional ou Overtraining. Se formos considerar que atletas de endurance como ciclistas, corredores e triatletas costumam realizar altos volumes de treinamento em sua periodização, especialmente na fase de intensificação (overload). Esse alto volume aumenta a chance de o atleta sofrer com a síndrome de excesso de treinamento e ter todas as adaptações negativas decorrentes. Para diminuir as chances de o atleta não entrar em excesso de treinamento, é importante alguns passos:

  • Avaliação da performance do atleta, principalmente no início e durante a temporada
  • Prescrição correta do treinamento do atleta, seja o treinamento físico ou o específico do seu esporte. Quando eu organizo uma planilha de treinamento para algum de meus atletas, levo em consideração diversos pontos como disponibilidade (tempo) para os treinos, nível de capacidade física, tempo para recuperação (treinos exaustivos ou volumosos precisam de um tempo para se recuperar), adequação do treinamento físico de acordo com a fase do treinamento técnico, entre outras variáveis a serem consideradas.
  • Monitoramento do treinamento, pois assim é possível detectar parâmetros como alta monotonia do treinamento ou alto estresse em treinos/semanas consecutivas, o que pode gerar excesso de treinamento e até mesmo lesões.      


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Romain Meeusen, Susan Vrijkotte, Kevin De Pauw and Maria Francesca Piacentini. Overtraining Syndrome. Aspetar Sports Medicine Journal, 2014.

Kreher JB, et al. Overtraining syndrome: a practical guide. Sports Health. 2012 Mar;4(2):128-38

Coutts AJ, et al. Monitoring for overreaching in rugby league players. Eur J Appl Physiol (2007) 99:313–324

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